E o River não escapou!

27/06/2011 19:31

Por: 3 toques (http://3toques.com.br/blogs/templodabola/)

O assunto que será abordado nas próximas linhas já está definido. Não tem mais volta. Mas, mesmo assim, este que vos escreve ainda está tomado pela incredulidade. Sabe quando você acha que já viu de tudo e, de repente, o inacreditável acontece? Pois é… Para ser bem sincero, nem os impiedosos 5 a 0 que o Corinthians aplicou no São Paulo (líder do campeonato), nesta mesma tarde, me chamou tanto a atenção. Ver um dos clubes mais tradicionais e amados da Argentina/América do Sul/Mundo, especialista em revelar grandes nomes para o futebol mundial ao longo da história, com sua queda para a segunda divisão decretada, pela primeira vez na história, é algo inexplicável. A ficha ainda não caiu, ao contrário do River Plate!

Neste momento o leitor pode estar perguntando o motivo de tanto drama. Afinal de contas, cair para a Segunda Divisão não é o fim do mundo, muito menos exclusividade do River. A maioria dos gigantes espalhados pelo mundo, aliás, já caiu alguma vez em suas respectivas histórias. No Brasil, apenas São Paulo, Santos, Internacional, Flamengo e Cruzeiro nunca tiveram tal desprazer. Na própria Argentina, dentre os cinco considerados grandes, só Boca Juniors e Independiente (a partir de agora) nunca foram à B Nacional. Milan, Manchester United, Juventus, Liverpool, Arsenal… Todos estes clubes já tiveram que passar pela segundona. Ora, mas então qual a razão para tanto espanto?

Inicialmente, uma confissão. Ao contrário de uma idéia propagada, desde que nascemos, por grande parte da mídia, familiares e torcedores em geral, não tenho o mínimo sentimento de “sangue nos olhos” quando o assunto é o futebol argentino. Sei, também, que do lado de lá a coisa é recíproca quando tratam o nosso futebol. Eles odeiam nos amar enquanto nós amamos odiá-los. E vice-versa. Sempre foi assim e assim sempre será. São rivais. No futebol e no resto.

Tenho total consciência do exposto, porém, integro uma minoria brasileira que ama o futebol argentino. Não as “artimanhas” que, provavelmente, já aconteceram nas mais diversas competições que eles disputam e/ou organizam (o que também não é exclusividade deles, ressalta-se, mas isto é assunto pra outro dia). Não das baboseiras que fala Maradona sobre água batizada e etc. Gosto de como o argentino ama e joga o futebol, tão bem quanto o brasileiro. Sou fã incondicional, entretanto, de como o argentino vive, sofre e torce o futebol, aqui sim, para mim, de maneira única e inigualável.

Assistindo cenas da partida que decretou a queda do River Plate, em um Monumental de Nunez, abarrotado de almas esperançosas, foi impossível não interagir com o que acontecia. Entenda a situação: o River teve que disputar a “Promoción” por conta de uma média utilizada pelos argentinos para definir o descenso. Em resumo, no jogo de hoje era preciso uma vitória por, pelo menos, dois gols de diferença. O jogo terminou 1 a 1 com direito a pênalti claríssimo não marcado para o River (quando ganhava por 1 a 0), bem como a outro, marcado (que também existiu), porém defendido pelo goleiro (quando já estava 1 a 1). Além disso, o gol do Belgrano nasceu de uma falha memorável dos defensores do River. Ou seja, não bastasse a situação e o ambiente que cercava o jogo, os próprios fatos durante os 90 minutos deram e tiraram a esperança dos hinchas millonarios de maneira cruel.

 

Nos últimos minutos, a arquibancada chorou. Crianças, mulheres, homens… Com o apito final, foi a vez dos jogadores, técnico, comissão… E como amor e ódio andam lado a lado, alguns torcedores, infelizmente, perderam o controle. Na verdade, muitos. As cenas de vandalismo de uma parte da torcida contrastavam com as de tristeza e sofrimento da outra. O apito final decretou a inédita queda do Club Atletico River Plate. Decretou uma marca que o tempo não vai tirar e que tais torcedores, da maneira como vivem o futebol, certamente levarão para o seu dia a dia.

Enfim, hoje a Argentina está de luto. Com exceção da torcida Xeneize (hinchas do Boca Jrs.), o futebol argentino chora a queda de um gigante. Pela primeira vez na história, o “Superclássico” não acontecerá por causa de um rebaixamento. Seguidas más administrações, times medíocres, campanhas vergonhosas… Tudo contribuiu, não cabe aqui encontrar o “câncer” causador de toda essa dor. O elenco que atuou hoje, aliás, não pode nem ser considerado o maior culpado já que não foi a campanha deste último campeonato a que, realmente, definiu a ida à “Promocíón”. O River Plate, por toda sua torcida e história, certamente pouco ficará neste lugar que frequentará no próximo campeonato. Porém, não tem mais jeito, uma cicatriz eterna foi marcada na alma de cada um de seus hinchas. O inacreditável aconteceu nesta tarde, naquele Monumental. Infelizmente para o River Plate, seus torcedores e, principalmente, pro futebol argentino.